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De Dessau até Montemor-o-Novo
De Dessau até Montemor-o-Novo
O relato longo de mais um longo voo Ferry num
Motoplanador Falke SF 25C, D-KNAL por José Aguiar (com Arlindo Silva)
LVI Campeonato Nacional de Vuelo a Vela - Ricardo Fernandes
LVI Campeonato Nacional de Vuelo a Vela
Diário de Bordo XZ/D-6076
Por: Ricardo Fernandes
26.06.2025
Saída de lisboa pelas 07h30m de carro rumo ao Escoural (casa do Rosales) para montar uma placa de veículo longo em falta no reboque e seguir rumo a Lillo.
No total 670Km nos quais 560km com reboque, a prova só começa no Domingo, mas como por milagre tenho estes dias livres decidi ir mais cedo para poder participar nos treinos oficiais e testar toda a logística e conseguir ter uma ideia mais “in loco” do local onde iria decorrer a prova.
A viagem com o trailer decorreu sem problemas e chego pelas 17h locais o carro marcava 37º. Deu tempo para montar e preparar o planador para o dia seguinte e conhecer outros pilotos que faziam o mesmo. Segui para o hotel e fui descobrir onde jantar.
Arestante equipa só chegaria no dia seguinte (João Rosa ASW20 e Jyrki Leppanen equipa de terra)
27.06.2025
Chegada ao aeródromo pelas 9h30 para montar baterias e assistir ao briefing diário pelas 10h.
Não foi atribuída qualquer tarefa pelo que aproveitei que a previsão meteo era boa e marquei uma tarefa a passar por várias pistas quem me pareceram serem de mais-valia como pistas de apoio para a competição.
Descolei pelas 12h44 e aterrei as 17h20 realizando 307km a uma velocidade de 68km/h. Ao contrário do expectável o dia não foi tão fácil como esperado pois se foi possível ter tectos de 2800m AGL as térmicas mostravam-se bastante difíceis, com núcleos muito fortes, mas bastante estreitas e bem turbulentas. Obrigando o ASW24 a bastante pranchamento e velocidades acima dos 100km/h para o manter estável e controlável. E embora não fosse completamente azul sem ser debaixo de nuvens as térmicas eram inexistentes alem das fortes descendentes entre térmicas.
28.06.2025
Chegada ao aeródromo pelas 9h para dar tempo de passar água pelo planador antes do briefing.
Briefing as 10h, e é proposto uma tarefa de 316Km sendo o início em Saldos a mais ou menos 10Km sul do aeródromo.
Descolei pelas 13h15m sem água pois o sistema elétrico do lastro decidiu dar problemas.
A meteo melhorou ligeiramente em relação ao dia anterior com térmicas difíceis até aos 1500m AGL com núcleos estreitos e turbulentos com baixa taxa de subida e que requeria estar sempre a ajustar o centro, mas que melhorável consideravelmente acima dos 2000m e era fantástica acima dos 2500m com a térmica a ser bastante mais larga sem dificuldade em centrar e atingir valores acima dos 3,5m/s integrados.
Havia também muitas nuvens formando alinhamentos que era coincidente com a tarefa proposta.
Aterro pelas 16h35 com uma velocidade media de 107km/h muito, mas muito bom para o meu normal, embora menos 14km/h do que o melhor tempo do dia na minha classe que pertenceu a Pilar Munoz no seu Discus BT WL a voar com lastro.
Nem passado dez minutos de aterrar recebo uma chamada do João a informar que tinha aterrado fora e precisava que o fossem buscar mas não podia ser no carro dele ou mesmo o meu com um pouco mais de distância ao solo tinha de ser um jeep ou similar.
Informei o Jyrki Leppanen a nossa (minha e do João) equipa de terra, falei com a organização e o Piloto Pablo Vispe Sola oferece como voluntario e o seu “Jeep” para o efeito.
Apos pouco mais de uma hora encontrávamos o João, mas a tarefa de recuperar o planador tornava-se impossível para os meios humanos e equipamento disponíveis o campo onde o João aterrara era terrível cheio de cardos e por baixo com pedras de todos os tamanhos, para compor o ramalhete o planador apresentava a primeira vista danos no trem de aterragem que impedia que o planador pudesse ser empurrado para uma zona mais simpática e desmontado para ser então transportado as peças até ao trailer.
Decidiu-se então deixar o planador onde estava e tentar arranjar um trator para o efeito numa das quintas nas proximidades onde o trailer pernoitou depois de falarmos com o guarda da mesma.
29.06.2025
Chegada ao aeródromo pelas 9h para dar tempo de passar água pelo planador antes do briefing.
Briefing as 10h primeiro dia de competição tarefa proposta “race task” de 299km.
Apos algum granel na grelha de saída descolei pelas 15h (já tinha a informação que o João tinha recuperado o planador com sucesso) a meteo era hoje muito mais instável com trovoadas pela tarde em várias zonas da tarefa a temperatura marcava 40º no carro.
Havia muitas nuvens a volta do aeródromo embora este estivesse no azul completo, que fazia com que sobreviver ate a abertura da porta de saída fosse o primeiro desafio do dia. A volta do aeródromo as térmicas eram escassas fracas e difíceis de centrar o que fazia que as poucas existentes estavam cheias de planadores em voltas bastante apertadas e todos mais ou menos ao mesmo nível.
Tal facto levou a que começasse tarde a tarefa.
Ate ao primeiro ponto foi fácil e rápido, assim que passei pela porta de saída rapidamente chego a zona de nuvens que funcionava muito bem ao voltar para o segundo ponto começa a complicar pois já havia duas trovoadas pela frente foi possível passar pelo meio evitando as duas embora muito próximo de uma delas não escapando a alguma chuva ao chegar ao segundo e ultimo ponto de volta eram 18h e para minha supressa uma terceira celular de trovoada entrepunha-se no meu trajeto para o aeródromo a 92km de distancia. Tentei sair o mais alto possível contornar a trovoada pelo barlavento, mas não consegui manter altitude pois a zona de sombra era enorme, apos conseguir chegar a zonas com sol já bastante baixo tento ganhar altura a vertical de uma vila, mas a térmica é muito fraca e apenas consigo 200m apos muito tempo e muita luta, o tempo passa a ser um problema também. O dia de voo estava claramente a acabar se conseguisse mais 600m era provável que chegasse ao aeródromo pelo menos a confiar no Oudi. Continuei em direção ao aeródromo, mas as térmicas não apareciam e já me era evidente que iria aterrar fora tinha alguns campos marcados pela organização no meu alcance embora nesta área muito agrícola e plana parecia haver muitas alternativas. Tentei chegar a uns campos perto da cidade Campo de Criptana e perto da estrada. O campo tinha sido ceifado uns dias antes segundo o relato de locais foi uma aterragem normalíssima numa boa pista de terra. Aquando da aterragem passava um carro na estrada com uma família que ficou muito assustada ao ver o planador aterrar e chamou a Guarda Civil que nunca chegou, foram muito amáveis facilitaram os contactos com o aeródromo e a minha equipa de terra com localização exata pois o meu telemóvel não tinha rede e deixaram uma garrafa de água fresca muito apreciada.
O João e Jyrki chegaram pouco mais de duas horas depois.
Estávamos de volta ao aeródromo já jantados antes da meia-noite.
30.06.2025
Hoje chego mais cedo ao aeródromo para permitir a montagem do planador a modo de estar pronto antes do briefing das 10h.
Psicologicamente ainda a tentar digerir os dias anteriores. O João estava fora de prova pelos danos no planador, mas continuaria a voar a boleia do Doudiscous de Angel Fernandez Diez.
A tarefa para hoje era AAT com uma distância possível entre 108km / 364km tempo 2h15m.
Descolo pelas 13h30m mas o voo começa mal, tenho de soltar por indicação do rebocador numa zona muito perto da pista falho a térmica, mas consigo voltar a apanhá-la, mas mais baixo e com a deriva do vento acabo por duas meias-voltas dentro da zona dos paraquedistas que como já anteriormente tinha acontecido a outros pilotos resulta em zero pontos, desclassificação nesse dia.
De qualquer maneira prossegui e finalizei a prova a meteo continuava com tetos altos muita instabilidade algumas trovoadas, mas que uma prova AAT dava mais liberdade para as evitar as térmicas continuavam dificílimas até aos 1500m AGL e melhoravam progressivamente com altitude. Consegui uma tarefa de 160km, mas cometo mais um erro que devido a desclassificação mais que provável não fazia diferença, cheguei mais cedo que as 2h15m.
Ainda fiz uma reclamação a organização apoiada por outros pilotos pelo facto das largadas estarem a ser feitas muito junto a área dos paraquedistas em especial com vento de sul. A mesma não teve provimento apenas uma chamada de atenção aos rebocadores para nos deixarem mais a sul em dias com aquelas condições.
01.07.2025
Chego ao aeródromo pelas 9h como habitualmente para preparar o planador.
Briefing as 10h Tarefa para hoje AAT de 188km /397km tempo 2h15m
Descolei pelas 13h10 como de costume sobreviver ao lançamento apresentava-se difícil no céu completamente azul sobre a área do aeródromo a meteo mantinha-se com tetos altos térmicas difíceis a baixa altitude. A tarefa coreu bem até à primeira área um pouco mais difícil até a segunda área devido a algumas zonas sem nuvens e com fortes descendentes e voltando a ser razoavelmente fácil até ao fim da tarefa. Ao aterrar o Oudi marcava uma velocidade media de 96km/h o que era muito abaixo do necessário para aquele dia.
Mas a mare de má sorte não tinha passado e verifico que a minha pontuação era extremamente baixa, tento perceber o que se tinha passado e a explicação era simples. Marquei mal as áreas no Oudi, a primeira área era um semi circulo de 180º com 30km de raio acontece que ao marcar 180º no Oudi e correspondente ao raio que descreve um círculo completo. Sempre que quiserem marcar um sector de 180º tanto no Oudi como nos aparelhos LX tem de se marcar raio 90º. Foi muito frustrante este erro.
A vencedora do dia foi Lucia Esteban Loring com 137.87km/h no seu Discus 2a 18m “full ballast” mais 41km/h que eu.
02.07.2025
Briefing 10h Tarefa para hoje AAT 227km/484km tempo 2h15m sem água pois devido a vento lateral e pista curta era muito complicado para os rebocadores que se tinham queixado no dia anterior. Houve uma acesa discussão sobre o facto de a medida beneficiar uns em relação a outros, mas a organização não cedeu alegando motivos de segurança e fomos todos lançados sem lastro.
Descolei 14h50 fui o penúltimo da minha classe a ser lançado, alguns percalços com a coordenação com os paraquedistas levaram a um atraso nos lançamentos.
O dia seguia o padrão meteo dos dias anteriores embora não tenha havido trovoada durante a tarefa mantive-me o mais alto possível durante toda a tarefa pois as taxas de ascendência das térmicas eram francamente melhores acima dos 2500m AGL o aproveitamento de linhas de energia também mais fáceis de detetar e seguir o que permitia velocidades medias mais elevadas.
Consegui terminar a tarefa com 103km/h contra os 132km/h de Jaume Prats primeira posição do dia classe standard também a voar em ASW24 WL a classe 15 FAI fazia 141.7km/h em ASW27 melhor marca do dia.
03.07.2025
Briefing as 10h como costume, Tarefa para o dia AAT 222km/ 416Km Tempo 2h15m hoje era possível carregar água.
A meteo para o dia segundo as previsões seria de um dia com algumas trovoadas, mas longe da área da prova e teoricamente mais rápido.
Não foi o que aconteceu o início foi bastante difícil com térmica muito fraca e teto muito abaixo da previsão desta vez os montes de toledo estavam maiores e com mais pormenores a sobrevivência no azul antes da abertura da porta foi bastante complicada mas assim que cruzamos a linha de saída que desta vez estava a 18km do aeródromo no limite do espaço aéreo as condições iam gradualmente melhorando em especial a altitude que conseguíamos alcançar. Pelas 15h30m e já passado os montes de Toledo as condições começam a melhorar significativamente havia agora bons caminhos de nuvens que permitiam aumentar a velocidade e voar com mais confiança não havendo grandes sobressaltos ate ao fim da prova embora vários pilotos reportaram forte descendente nos últimos 30km a 10km antes da zona de chegada levando mesmo a uma aterragem fora. Que me levou a meter um pouco mais de gasolina na última térmica já um pouco cansada embora ao cruzar a dita área não tenha experienciado nada de anormal para um fim de dia.
Cruzo a Chegada com uma distância de 274.29km com 96km/h e infelizmente 2h51 de voo contra o primeiro classificado do dia Jaume Prats com 290.67km a 122.63km/h e 2h22m de tempo de prova.
P.S. a zona dos “paracas” voltava a fazer vítimas na minha classe.
04.07.2025
Briefing as 10h Tarefa para hoje Racing Task de 385.71km sem água (vento cruzado a pista)
Contestação do último ponto de volta (AD Fuencaliente) da tarefa pelos pilotos da 15m e Standard pois este implicava segundo as previsões uma saída da zona de nuvens para o azul em mais de 30km em ambas as direções numa área difícil mais elevada e com forte influência de ar marítimo com vento mais forte.
A organização não atendeu aos encarecidos pedidos dos pilotos e manteve o ponto.
Vários pilotos falaram comigo antes da prova a alertarem das dificuldades em alcançar o dito ponto.
Descolei pelas 13h30 hoje mais fácil manter altitude na área de espera pela abertura da porta que cruzei as 14h10m. Devido ao granel diário no montar da grelha eu tentava ser sempre dos últimos na saída da minha classe com algum sucesso diga-se, pois, ficar as voltas em térmica fraca e escassa no azul não era muito agradável.
A meteo era de tetos altos (4000m msl) e térmica forte embora só o fosse a partir dos 2000m agl e com bastantes nuvens.
Consegui com alguma facilidade chegar ao primeiro ponto e igualmente facilidade ate aos 30km antes do segundo ponto registava no Oudi a velocidade de127km/h tal como os outros tentava ganhar o máximo de altitude para cruzar o azul de modo a marcar o segundo ponto tinha três outros planadores a vista deixei que saíssem primeiro mas acabei a segui-los o ar era laminar não subia mas também não achei nada de anormal perto do ponto houve algum movimento no variómetro mas sempre que tentávamos enrolar apenas perdíamos altitude marquei o ponto mas os 3800m msl eram coisa do passado por esta altura eram visíveis oito planadores mais ou menos na mesma situação com +/- 800m agl cooperação era palavra de ordem para conseguirmos sobreviver e sair dali para a área de nuvens que se encontrava a uns 20 e tal km. A experiência foi incrível, dividirmos entre os montes com pedras a vista e as pequenas povoações em térmicas muito fracas a pouca altitude voltas muito apertadas e muitos planadores em altitudes muito semelhantes. Sempre que alguém conseguia subir um pouco os outros juntavam-se-lhe e se conseguia uns 200m tentava mais a frente. Foram cerca de 35m de muito sofrer com a aterragem fora quase garantida até conseguirmos uma térmica que rompia os 1000m agl e levarmos de volta aos confortáveis 3000m agl para completarmos a tarefa embora o tempo tenha passado e ainda faltassem +/- 128km as térmicas embora subissem alto já apresentavam sinais de fim do dia pelo que depois do susto não era possível voltar as velocidades de cruzeiro anteriores embora altos mas a precaução falava mais alto.
Cruzo a área de chegada as 17h17m com os 385.71 a uma velocidade de 90.05km/h contra o primeiro classificado de dia com Jaume Prats a 112.46km/h
05.07.2025
Briefing 10h pontual como sempre último dia de competição cancelado devido a condições meteo.
Previsão meteo para hoje trovoada a vertical do aeródromo pelas 3h com chuva
Adiantamento do programa com entrega de prémios seguido dum brunch e convívio entre participantes para as 13h.
Classe Clube:
Jorge Arias Riera- Std. Cirrus/ Sillas Voladoras
Antolin Javier Váldes Galera- G 103 Twin 3 sl 18m/ Sillas Voladoras (impressionante, pese embora que nestes dias a maior carga alar era um big plus mas mesmo assim absolutamente impressionante)
Mateusz Kruszynski- SDZ-55-1 Nexus / Cerdanya
Classe 15m:
Francisco Ortega- ASW27 /Ocanã
Carlos Gonzalez Herrero- ASW27 / Ocanã
Miguel Monedero Yebenes- ASW20 / Ocanã
Classe Standard:
Jaume Prats- ASW24 WL / Cerdanya
Lucia Esteban Loring- Discus 2a 18m / Nimbus
José Miguel Carmena Martinez- Discus BT WL / Ocanã
Tal como todos os outros aproveitamos para desmontar os planadores antes da entrega de prémios e por volta das 3h estávamos maioritariamente na estrada.
Reboqui o trailer até Fuentemillanos com esperança de aqui a algumas semanas poder voltar para mais uma semana de voo a vela.
Nota final
Partecipar num campeonato como este é como participar num curso avançado de voo a vela.
A minha pontuação demostra o quanto da minha impreparação como falta de experiência e algum azar… também.
Mas para mim não foi só uma etapa ultrapassada foi muito mais que isso pois pude em 8 voos experimentar situações pouco comuns como aterrar fora (essa já não conta) voar em “gaggles” com 10 e mais planadores de todas as classes e todos mais ou menos as mesmas altitudes e muitas das vezes com pranchamentos constates acima dos 40º a abrirem e fecharem voltas a minha frente com o variómetro quase mudo e o Flarm aos gritos e por vezes em núcleos muito próximos apenas respeitando o sentido de volta.
Quem ache que eu sou um piloto agressivo em térmica aqui sentia-me como um gatinho doméstico por vezes um pouco atrapalhado.
E aprendi muito pois competição e voar com máxima eficiência. Voar em condições de grande instabilidade com sobre desenvolvimento e trovoadas e debaixo de chuva algo que não faria se não nesta situação.
Voar em transição a 200km/h e mesmo assim constatar que estava lento.
Desde como são pensadas e executadas as estratégias de voo a pequenas técnicas que nos permitem evitar erros que nos custam tempo como o de voltar antes de estarmos realmente na térmica e centrar o mais rápido possível. Outras embora contraintuitivas, mas não menos importantes tais como abandonar uma térmica que embora centrada não tem o rácio desejado de subida para a media do dia mesmo estando a precisar de ganhar altitude e gestão de velocidade vs altitude etc…
Obviamente ainda não assimilei ou consigo executar com sucesso tudo o que pude observar e testar mas com o tempo vai lá.

